- Cultura
- Dica de Filme: A Família Savage
- Um dos momentos mais difíceis que uma pessoa precisa enfrentar na vida é a decisão de encaminhar um familiar para uma geriatria. Na comédia dramática A Família Savage (The Savages, EUA, 2007, 114min, disponível em DVD), este problema foi retratado pela diretora e roteirista Tamara Jenkins de maneira sincera e objetiva, sem espaço para situações inverossímeis.
- Wendy e Jon (interpretados magistralmente por Laura Linney e Philip Seymour Hoffman) são dois irmãos com graves problemas pessoais. Ela não tem dinheiro pra quase nada e fica esperando a chance de receber uma bolsa de estudos para montar sua peça teatral, enquanto mantém um relacionamento sem futuro com um homem casado. Ele ficou sozinho depois que a namorada polonesa perdeu o visto dos EUA porque ele não quis se casar com ela: Jon preferiu se dedicar exclusivamente a um livro sobre o dramaturgo Bertolt Brecht que não consegue terminar. No meio do furacão da vida de cada um, eles recebem a notícia de que sua madrasta faleceu e que seu pai está com um indício de demência. Acaba não restando outra alternativa aos dois a não ser colocar o pai numa hospedaria.
- Lenny Savage (o perfeito Philip Bosco) é um senhor que, apesar da doença, sofre com as dores dos filhos. E o maior sofrimento deles é gerado pela decisão da geriatria. O pai parece saber que não poderia ficar aos cuidados dos filhos, que também têm consciência de que não conseguirão cuidar do pai. A hesitação dos dois com relação ao destino do pai é mais comum do que imaginamos. Mas é uma decisão que precisa ser tomada: o filme mostra como essa hesitação prejudica definitivamente a vida do familiar doente. E é isso que parece mais atormentar o pobre Lenny.
- Pior do que ter uma doença, é ser um estorvo para os familiares. Por isso, uma geriatria deve ser vista como o local para onde o familiar se mudou e que tem uma equipe preparada para dar o melhor atendimento. Os familiares do paciente não podem ficar se martirizando. Ou então acabarão como Jon e Wendy, que só conseguem relaxar quando seu pai falece.
- Marcelo Frizon
Professor de Literatura Brasileira da UFRGS